11.22.2007

A dignidade e o papel higiênico

A cada dia que passa assistimos a novos casos de corrupção, enganação, falta de escrúpulos e outras coisinhas mais que pululam pelos noticiários. Mas a verdade, se ninguém percebeu ainda, é que as pessoas "comuns" já estão contaminadas por isso tudo. A cultura do "ser esperto", tirar vantagem de tudo sem dar importância se está pisando em cima de algo ou alguém. Ou se está usando alguém de escada para sua subida astronômica.
É gente dando golpe aqui, contando uma mentirinha acolá, tirando o seu da reta e colocando o de outro. Coisas da vida. Será? Ainda me recuso acreditar que isso seja o "normal". Sem falso moralismo, nem pagando de santinha, mas realmente é assim que deve ser? Onde foi parar a dignidade que todos tanto pregam e que é assunto principal quando queremos exigir que algo seja feito? Cadê a NOSSA dignidade?
De ver uma sacanagem e não ficar quieto, de falar a verdade quando é isso que pedimos aos outros? De cumprir nosso papel de cidadão quando exigimos tanto que outros o façam? De, nas simples coisas, não nos vendermos. Não aceitarmos aquilo que repudiamos porque é mais fácil, ou porque alguém está nos forçando.
Essa semana comprei um papel higiênico com folha dupla, daqueles que o james vai levar para a madame no banheiro. E acho que ultimamente a dignidade anda mais ou menos assim, como um rolo de papel higiênico: diminuindo a cada dia e acabando no cestinho de lixo.
É assim que você quer que a vida seja, e suas relações com as pessoas e com o mundo? Eu acho que não...

11.17.2007

Fugindo dos padrões...

Pois então, fugiremos dos padrões.

Aí vai uma dica de teatro: Assombrações do Recife Velho, no Espaço "Os Fofos Encenam", na rua Adoniran barbosa - Bela Vista. Maravilhooooooooso!!! Vale muito conferir, com uma fuçada no google você acha as informações completas.
E seguindo na fuga: vestido vermelho, meia preta, sapato prata, cachecol verde. Colorida ou "colorilinda"? Os dois. Chega dessa coisa meio "marromeno", chega de sentar e chorar o leite derramado. Evoluções de uma mente cansada e um corpo sedento por novos espaços. Deixar as lágrimas estacionadas em um passado que não volta e seguir o caminho das pedrinhas amarelas. Parece que nunca chega esse dia em que abandonamos de vez os velhos hábitos e recorrências. Mas o dia chega e a gata borralheira vira cinderela. As flores cor de rosa avermelham e os dias são muito mais interessantes.
Os sons são sentidos com mais apuro, as palavras saem mais diretas e os sentimentos se "desconfundem". O ser se torna maior que o estar e a vida passa leve, passeando, passarinhando. Gotas de cor espalham-se pelo ar deixando tudo mais divertido e o sono agora vem como um repouso, não mais como um refúgio.
Cortar os cordões da marionete pode ser uma experiência renovadora...

11.15.2007

Quando eu morrer não quero choro nem vela...

Quero uma fita amarela, gravada com o nome dela...

Quero ser lembrada um dia como aquela que veio para o mundo a passeio. Quero viver feliz e conseguir irradiar essa felicidade para todos que me rodeiam. Quero respirar e sentir as pétalas de todas as flores que já cheirei. Quero sorrir e sentir nos lábios a alegria de todas as pessoas que já passaram por eles. Quero dormir e sonhar com todos os mundos que ainda não conheci. E quero acordar com o sol brilhando tanto em meu rosto, que eu precise cerrar meus olhos pra conseguir enxergar os olhos de quem estiver ao meu lado.

Quero amor, quero paz, quero luz. E Oxalá sempre acima de mim, olhando, sorrindo, cantando...

11.08.2007

Ditos populares nacionalmente conhecidos, "quiçá" mundialmente!

Pelo em ovo, chifre em cabeça de cavalo, procurar sarna pra se coçar. Várias expressões que dizem a mesma coisa, conhecida desde os primórdios da humanidade (e imitando Huck, o Luciano) quiçá de antes da humanidade existir. Imagino um dinossauro daqueles de carinha simpática enfiando o "focinho" num buraco estranho. E saindo de lá com um quente e dois fervendo. Quem nunca quis saber aquilo que não quer realmente? E só descobre que não quer depois que vê. Grandes desafios da humanidade, levar a vida sem querer saber mais do que sabe, ou do que precisa saber. Muitas invenções geniais provavelmente aconteceram assim, mas quando se trata de coisas banais não é melhor deixar do jeito que está e esperar pra ver como fica?

Mas o ser humano, principalmente os do sexo feminino, gostam de "cavar" até achar alguma coisa. Pode ser uma porcaria, mas a pessoa quer achar. E acha. E fica com cara de cu, com o perdão da palavrinha-palavrão. Tanta coisa melhor pra fazer, vá ler um livro, vá lavar uma louça, vá caçar um sapo. Mas não vá enfiar a cara de cu no buraco alheio. E sair de lá com a cara de cu ao quadrado, quiçá ao cubo (gostei dessa imitação...).

Depois que o estrago já foi feito e o cu já está estampado na cara, nada mais a fazer do que relaxar e gozar (novamente imitando outra pessoa e já pedindo desculpas pelo trocadilho). Afinal, se quem quis enfiar o naso foi você, sem permissão e sem necessidade, azar o teu zebedeu. Engole o choro e vá tratar da vida. Afinal, jacaré que dorme na praia a onda leva...

11.07.2007

Ainda nas musiquinhas...



Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

[Adriana Calcanhoto - Formiga Bossa Nova]

10.31.2007

Ai, minhas pantufas...

Quem tem pantufas tem tudo nessa vida. Eu não tenho mais patufas. Mas continuo tendo pés. Que andam cansados porque andam. De lá pra cá, de cá pra lá. E eis que chega a roda viva...

"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração..."

[Roda Viva - Chico Buarque]

10.28.2007

Cada um na sua, atrás de seu próprio caminho

Quando o dia amanhece e nos levantamos da cama nem imaginamos como será. Quer dizer, às vezes. Em alguns dias, desses mais impetuosos, temos certa sensibilidade de que algumas coisas acontecerão assim ou assado. Bem, pelo menos algumas pessoas têm esse feeling. E quando sentimos algumas coisas às vezes nem damos bola, não nos importamos, "é coisa da minha cabeça" dizemos. Mas na verdade não é. Precisamos começar a perceber nossos sinais e levá-los a sério. É nossa alma falando conosco e dando seus avisos. E é sempre bom ouvir.
Parece que a vida está sempre querendo nos pregar peças, mas na verdade nós mesmos nos jogamos em certas armadilhas e depois sofremos pra sair, ficamos com a patinha machucada. Aprender a identificar essas armadilhas e passar ao seu lado, sem cair nelas acredito que é nossa grande missão. Aprender a controlar a mente e identificar as "verdades reais" e não as imaginárias.
O fim das ilusões, das expectativas e o começo de uma abertura em nossa consciência. A precepção do vazio e das limitações do ser humano. Cada um só busca ser feliz. Viver sem mágoas e sem rancores é o melhor que podemos fazer a nós mesmos. É difícil, mas nem tanto. Os problemas sempre parecem menores quando olhados do alto. Subamos então em nossas escadinhas, não só pra ficar mais perto do céu, tampouco na altura dos lábios de outra pessoa. Mas para olhar nossas vidas por outra perspectiva e perceber que nem tudo é tão mau quanto parece e nem tão bom que seja insubstituível.

10.22.2007

E não sou só eu...

Não sou só eu que sinto tristeza de ver o passarinho do peitinho amarelinho... sensibilidades dessas que poucas pessoas têm hoje em dia...

10.19.2007

O dia no qual a bunda precisou ser mexida... ou um elogio a mim mesma... ou uma pitada de indiretas... ou ainda um momento de desabafo...

Vamos levando a vida, tranqüilos, confiantes naquilo que nos parece tão sólido, imutável. Nos deixamos levar, ficamos à deriva, sem precisar correr muito atrás das coisas. Afinal, parece que sempre tudo será igual. Mas um dia, sem perceber, estamos sentados num banco feito de ar, no nada, e como naqueles desenhos, a hora que percebemos que estamos sobre o precipício é que caímos.
É essa a hora em que notamos que temos uma bunda (nessa hora e também na hora que alguém chuta essa bunda). E que essa bunda foi feita pra se mexer, e não como dançarina de algum tchan. Como num filme que vi uma vez numa aula (que não esqueci nunca mais pois foi uma das poucas vezes em que comentei alguma idéia em sala de aula): às vezes é preciso que tudo esteja uma bagunça para que possamos organizar, ou reorganizar a casa. No caso, a vida.

Acabou-se o tempo em que o dinheiro servia para ser gasto com roupinhas, sapatinhos, besteirinhas. Agora ele é gasto com aluguel, condomínio, contas. Que não querem saber se sua bunda está parada ou se mexendo. E é nessa fase que precisamos mostrar a que viemos, que precisamos capturar esse ser "adulto" e fazê-lo virar realidade e não tratá-lo como uma bonita teoria.
Amadurecimento, maduro, duro. Crescer dói, ou machuca, como já disse alguém por aí, por esse mundo. Mas quando cai a ficha: pô, eu consigo, eu consegui, "veni, vidi, vici"! Ah, que orgulho bom da gente!
Medo ainda tenho muitos, de muitas coisas, principalmente daqueles "infaláveis", mas a cada dia sinto que consigo lidar melhor com esse lado medroso, medonho, melindroso. E conseguir manter a mente tranqüila é uma coisa que venho treinando (preciso de aperfeiçoamentos ainda, mas...) e conseguindo bons resultados.
Apaixonante, apaixonada e apaixonadamente vou levando esses meus dias, meus meses, meus anos. Que não são dourados porque prefiro prateados. E não são solitários porque a solidão não me pertence mais. E não são mais enfadonhos porque eu sou a pessoa mais legal do mundo. E quem quiser que perceba isso. E que se aproveite disso. E que queira me acompanhar. E que me acompanhe. E que se apaixone. Porque eu já estou, porque eu já sou... e sigo feliz com meu cabelinho de happy feet e minhas mãos pequeninas que conseguem abraçar o mundo!

10.07.2007

O sol, as massas e as maçãs...

Fui embora de mim e sabia perfeitamente que era o que deveria ter feito. Saí, bati a porta e chamei o elevador. Desci e segui por caminhos estranhos, estreitos, estéreis. Estanquei o sangue que escorria por meus poros cansados e entrei na água. Água corrente, recorrente de meus tempos esquecidos. Aquela água em que me banhei, na qual a vida foi criada, agora me transformava em outra coisa, outro ser, outro peso e outra medida. Novos sabores, novos aromas e novas sensações. Diferentes, mas nunca ruins.

Não quis olhar para trás, não quis rememorar o indizível, nem cair em tentação. Segui caminhando entre arbustos negros, mata fechada, insetos gigantes. Firme, forte e segura, apertei o passo. Tropecei. A grama tocava meus braços, incômoda. Uma grande serpente atravessou o caminho por cima de minha perna direita. Passou deixando em minha pele uma marca rosada de serpente imaginária.

Levantei e meus pés não mais tocavam o chão. Mexia os dedos, fazia acrobacias pouco acima do solo que até então me sustentava. Eu não precisava do solo, eu não precisava dos pés a não ser para me impulsionar para a frente e não para me apoiar. Meu apoio eram os fios de cabelo que bailavam contra e a favor do vento leve que se embrenhava por todos os espaços. Eu era livre, eu estava desconectada daquele mundo e assim encontrava o meu próprio.

Já sentia para que lado ir e seguia por esse caminho simplesmente apontando o olhar. E voei por séculos sentindo o sol acariciando todo meu novo ser. Fui ao infinito e além, agora eu era a Dorothy com seus sapatinhos mágicos e conhecia meu novo mundo colorido, pintado por Frida Kahlo, embalada pelo som de Morricone.

Meu novo mundo era assim: brilhante, radiante, lúdico. E nunca mais olhei para trás, onde jazia meu antigo corpo inanimado.

9.24.2007

O vôo

A semana passada inteira me fez companhia uma "aleluia", daquelas verdinhas, bonitinhas, nem sei se têm esse nome mesmo, que não fazem mal nenhum e adoram bailarinar em volta das lâmpadas acesas. Todas as noites ela aparecia e eu até já havia me acostumado à sua presença. Dizem que pessoas que moram sozinhas ficam assim mesmo, falando sozinhas, "adotando" insetos que aparecem de vez em quando. Para espantar a solidão, talvez. Ou só para ter com que, ou quem, interagir.
Ontem olhei pra ela e pensei: o que essa coitada come aqui, trancada nesse apartamento. Na verdade nem sei o que aleluias comem, mas de vento é que não vivem. Conversei então com ela e disse que apesar da sua companhia até agradável ela precisava ir embora, senão morreria. Fui dormir e ela ficou na minha sala sem janelas.
Acordei hoje a vi no batente da janela do quarto. Ela havia me entendido, da maneira dela, claro. Entendimentos desses desentendidos, sem explicação. Peguei-a em minhas mãos, abri a janela e como quem deixa escorrer um punhado de areia deixei-a ir, voando, atrás de suas verdades. A aleluia se foi.
Essa semana foi a segunda vez que soltei os dedos... e talvez não tenha sido a aleluia a única que voou...

9.20.2007

Rearview mirror

Rearview mirror” sempre foi uma expressão confusa pra mim. Difícil pronunciar, vira uma coisa só. Lembro de uma conversa que tive, lá atrás, sobre essa expressão. Na verdade foi um treino de pronúncia, mas só saía errado. Nunca dei muita importância ao significado disso. Mas, para quem acredita em destino, sina, não coincidências, essa palavra veio bater à minha porta hoje. Em português, mas não poderia deixar de lembrar de sua irmã inglesa, depois de tentar dizer tantas vezes, em vão, como num trava língua, o tal do rearview mirror.

Veio numa frase, ao me olhar no espelho e ver refletida a parede da cozinha: cansei de olhar a vida pelo retrovisor. “Objects in mirror are closer than they appear”. Mais perto do que aparentam ou mais importantes do que realmente são? Olhar a vida pelo retrovisor é trazer diariamente de volta tudo aquilo que já devia ter ficado pra trás: as dores, os amores, as alegrias, o passado. O retrovisor refaz o caminho e o hoje fica perdido atrás dele.

Num carro o retrovisor é essencial. Até brinco, eu que não dirijo, dizendo que precisaria de muita coordenação para olhar em todos aqueles espelhos, prestar atenção no caminho, nos outros carros, trocar a marcha, acelerar e frear, ouvir música e conversar com o passageiro. Na verdade meu “medo” de dirigir deve ser diretamente relacionado ao fato de que só prestaria atenção ao retrovisor. Me perderia no caminho, não ouviria a música, a voz do passageiro soaria distante como num bar com música ambiente. Ficaria estacionada, sem acelerar ou frear, com a mão esquerda pousada no volante e a direita estática, em ponto morto. O carro tornaria-se então uma extensão de mim e eu seria uma parte do cenário. Filme sem diretor, sem atores. Só cenário.

“Em que espelho ficou perdida a minha face?”. O espelho inverte as imagens, então sou um reflexo invertido do que realmente sou? E o que vejo pelo retrovisor é um retrato ao contrário das coisas que me aconteceram? Dizem que há espíritos que ficam perdidos em espelhos, vagando de moldura em moldura. Reflexos de pessoas que perderam-se em seu passado e não conseguem desprender-se dele. Do espelho e do passado. Me assusta a hipótese de perceber que minha vida acontece por detrás de mim, sobre meus ombros e que sou apenas uma espectadora. Me assusta, um dia, ver uma figura tão distante do que eu acredito ser e já não poder quebrar o espelho. Porque eu seria o espelho. E sem ele eu não seria mais ninguém.

Cobrir os espelhos da casa traria o esquecimento? Me daria a oportunidade de olhar para a frente, com meus próprios olhos, sem máscaras? Descobriria meu próprio eu? Ou já sou parte do que visualizei e construí? Seria como no retrato de Dorian Gray? Quem escreve estas linhas é a imagem ou o objeto? Existe realmente essa dualidade? Cada um de nós é o conjunto do que realmente é e o que vê refletido?

Diversas vezes ouvimos dizer que os olhos são o espelho da alma. Trazemos um retrovisor em nossos olhos. E temos a opção de olhar para ele ou através dele. Como descobrir de que maneira estamos olhando? Não há como saber. Mas não podemos acreditar em tudo que nossos olhos vêem. Podemos simplesmente estar olhando do modo errado.

9.19.2007

O passarinho do peitinho amarelinho

Da minha janela vejo um passarinho na gaiola. Ele tem o peitinho amarelinho e a cabecinha preta. De sua gaiola ele vê os outros pássaros, livres a voar, conquistando os ares, posando nas árvores, cantando sua liberdade natural. O passarinho da gaiola também canta, mas seu canto na verdade é um lamento e me faz chorar. Quanta crueldade prender o bichinho e ainda ficar jogando na cara dele: eles podem, você não pode...

9.18.2007

Sol e chuva, casamento de víuva...

Não queria um mundo perfeito, onde tudo desse certo e as coisas fossem fáceis. Onde não houvesse dúvidas e todo dia fosse ensolarado. Que cada coisa acontecesse na hora em que desejássemos e não precisássemos esperar pelo pão quente. Sem filas, sem trânsito, sem dor de cabeça, sem menstruação. Sem amores perdidos e encontrados por outras pessoas. Sem flores murchas, sem morte, sem angústia. Não, eu não gostaria de um mundo assim. Gostaria de um mundo assado. Com mollho madeira e vinho acompanhando. De sobremesa uma bola de sorvete de pistache. E depois um cafezinho bem forte.
Depois de comer o mundo as coisas seriam mais tranquilas porque eu seria o mundo também. E por isso ele não precisaria ser perfeito porque ninguém é perfeito. Nem eu, nem o romeu. E quando me desse vontade de furar a fila, ou de pegar o pão quente do forno era só me mexer, mexerica. E quando chovesse eu ligaria o interruptor do sol e deixaria a água cair amarelinha. Se estivesse em dúvida, abriria meu dicionário de questões "irresolvíveis" procuraria o vocábulo correspondente, que eu mesma criaria e pronto: dúvida sanada. Porque eu seria o mundo e o mundo seria meu. E na minha imperfeição tudo daria certo. Até o que parecesse errado.

9.15.2007

Imaturidade forever

Lembra quando você estava na quarta série e aquela amiguinha falou que seu peito era maior que o dela? O que para você, na época, era uma tragédia porque você só tinha uns 10 anos de idade e já usava sutiã, morrendo de vergonha porque era uma das pouquíssimas da sala que precisavam desse acessório terrível. É, talvez você não se lembre porque muito provavelmente você também ainda não tinha peito, diferente de mim. Mas continuemos hipoteticamente falando. Você se sente a pior das pessoas, a mais humilhada e vira a cara para aquela menina horrorosa que você lembrará para o resto da vida. Aí começam as provocações, os meninos entram na onda e você conhece na pele a imaturidade e maldade inerente às crianças/pré-adolescentes.

Os anos passam e você cresce, junto com os peitos, que a um certo momento passam fazer você se sentir mais como mulher e isso torna-se uma coisa boa. Mas aí percebe que você é branquela demais e usar uma saia torna-se seu mais novo motivo de pesadelos porque a imaturidade e maldade das pessoas continua e você é obrigada a ouvir, quase que diariamente, piadinhas sobre sol, bronzeamento e companhia. Você tambem é imatura, caso contrário nem daria bola pra essas coisas. Mas começa a perceber que não é legal ficar gritando aos quatro ventos o que você considera um defeito nas outras pessoas. É a luz da maturidade que começa a brilhar no seu horizonte.

Então você fica adulta. As pessoas com que você se relaciona são adultas. O universo em que você vive é outro mas você realiza em sua mente brilhante que a maturidade não é para todos realmente. Vez ou outra, ou vez e sempre, você encontra pessoas que vivem com a cabeça na quarta série e pequenas humilhações e atitudes não passaram pelo crivo do tempo. Você ainda se importa, se chateia, mas agora de maneira diferente: não porque você foi afetada com esses comentários ou atitudes, mas sim porque acha inconcebível que algumas pessoas cresçam e outras não.

Todos temos algum traço de imaturidade que levamos por toda a vida, isso é fato. Mas existem pessoas que fazem dessa imaturidade uma desculpa para justificar seus atos perante os outros. E isso, uma hora, com o perdão da expressão, dá no saco. É um porre ter que aguentar desculpinhas esfarrapadas, seguidas de atitudes contraditórias porque as pessoas simplesmente não conseguem assumir suas fraquezas e vicissitudes. É difícil ser sincero, é difícil dizer a verdade e assumir as conseqüências que isso traz. Mas essa síndrome de "peter pan forever" é uma coisa tão disseminada hoje em dia que o relacionamento com outras pessoas torna-se uma coisa extremamente mais complicada do que já é normalmente.

Eu ainda faço birra, tenho ciuminho besta de amigas, limpo o potinho de iogurte com o dedo e adoro cereal coloridinho. Imaturidades que nos fazem bem, que não deixam a criança dentro de nós desaparecer e deixam nossa vida mais leve. Mas deixar essa criança tomar as atitudes que um adulto deveria tomar é um pouquinho demais e cansa a beleza de quem está por perto. Cresçam e apareçam um pouco. Coragem, irmãos!!! Dêem a cara a tapa um pouquinho e não se escondam atrás da máscara do "barney" (o dinossauro pink horroroso!!!). Deixem os teletubies de lado e comecem a agir conforme a idade que vocês têm realmente e não com a idade mental que conservam desde que tinha 10 anos. Comam "froot loops" mas não esqueçam da beleza do sushi...

9.14.2007

Sobre amor e amigos

* "O amor por uma pessoa deve incluir os corvos de seu telhado."


Hoje é meu aniversário. 30 anos muito bem vividos, obrigada! Ao acordar, no meu horário habitual, tive uma surpresa: recebi uma cesta de café da manhã. De duas amigas irmãs muito queridas. Fiquei tão, mas tão feliz, que se meu dia iria ser bom, agora ele será sensacional. Isso me leva a pensar: como um pequeno gesto transforma nossas vidas e que o maior presente que podemos receber da vida é esse: amigos de alma que estão sempre ali, com o coração e os braços abertos, prontos para ficar ao nosso lado quando precisamos, prontos a nos dar bronca quando merecemos e para nos dar parabéns quando conseguimos conquistar nossos objetivos. E que sabem exatamente a que horas mandar entregar o café, quando sabem que você não acorda antes das onze da matina!

Vejo por aí pessoas que passam seus dias reclamando, dizendo que não têm sorte, que a vida não é boa para elas. E me pergunto: por que será? Será que não tem amigos especiais que façam valer a pena? E nesse rol de amigos incluo a família, que no meu caso é de amigos também. Minhas irmãs são umas queridas, fofas, maravilhosas, assim como minha mãe e minha avó. E apesar das minhas "pendengas" com meu pai sei que ele também está lá, se eu precisar.

Texto piegas? Pode ser, mas não poderia deixar de agradecer aos céus tudo o que a vida sempre permitiu que eu tivesse, incluindo os momentos difíceis, que todo mundo tem, mas que sempre vão embora e que nunca conseguiram tirar o sorriso do meu rosto.

As pessoas não são perfeitas, todos têm seus corvinhos no telhado, mas adoro os corvinhos de todos vocês, amigos e amigas, de perto, de longe, de todo lugar. E obrigada por compartilharem comigo cada dia, cada vitória, cada tristeza e cada novidade. Meu melhor presente é o amor que sinto por vocês!!!


* Provérbio dito chinês, mas em se tratando de internet nunca se sabe. Mas o que vale é o conteúdo e não a forma.

9.05.2007

A espreguiçadeira de cristal

Um dia sonhei em ter uma cama de princesa. Daquelas enormes, com dossel, cabeceira dourada. Sonhar com campos distantes, belezas que só conheço na minha imaginação. Tenho uma cama comum, sem cabeceira, mas com seu charme, garantido pela decoração que eu mesma criei. Mas depois de um tempo os sabores mudam, as vontades se transformam assim como a vida. Penso em Paris, Barcelona, Lisboa como lugares que preciso conhecer antes de morrer. Assim como Salvador, Belém do Pará, Amazônia; sentir os aromas do mundo, conhecer as vontades de outras pessoas.

E hoje tenho uma espreguiçadeira, chaise para os chiques de plantão. Parece uma grande bobeira, mas ela é um convite a não fazer nada, na verdade ao ócio criativo, já que a primeira visão que tenho dela é de uma prateleira de livros, cheia de coisas que ainda não li porque minha cama sem dossel não me transmitia as mesmas vontades. Me jogo ali e o mundo abre-se novamente. Conheço novas pessoas, com histórias diferentes, assuntos interessantes. Vou de
Saussure a Jorge Amado em poucos minutos pois tudo ali é possível.

É possível pensar na vida olhando de fora. Deitada a reconstruir o "inconstruível", a imaginar os campos vastos e imensas metrópoles. Lutar contra moinhos de vento e me perder dentro do coração selvagem, passear pela Mata Atlântica e saber um pouco da vida de Neruda. Tudo ali, da espreguiçadeira, do meu grande novo portal para um admirável mundo novo.

9.04.2007

Um dia de chuva para um dia de sol

"É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva..."

[Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos]

Simples assim é a vida. Não tome um dia de chuva como um complô contra você. E não entenda a tristeza como algo que foi feito pra te machucar. Viva cada dia. Aproveite seus sorrisos e não amaldiçoe suas lágrimas. Não se preocupe demais, não esperneie, mas morra de amor por um dia, chore no final do filme e sorria para o cachorro que passa...

8.31.2007

O que cabe onde?

Você cabe no lugar onde está? O sofá cabe naquele canto da sala? Quantas vezes o 10 cabe no 100? A geladeira cabe no elevador? Cabe eu te dizer aquilo agora? Tem cabimento você aparecer aqui hoje? Cabide de madeira é melhor que cabide de plástico? Sua cama tem cabeceira? Seu cabelo é comprido?

Cabe, cabelo, cabeça, cabide, cabana, cabo, caboclo, cabala...

O que cabe aonde? Eu caibo aqui? Eu caibo acolá? Eu caibo em você e você cabe em mim? Se não cabe a gente aperta, a gente se espreme? Ou a gente explode e espalha?

Espalha, espelho, espera, espada, espeto, espiga, espalma, espuma...

Reinvente, faça caber ou faça explodir. Faça pensar ou faça desistir. Pinte o sete, ou o nove, ou o quatrocentos e quinze. Encaixe-se, mas não encaixote-se. Respire, mas prenda a respiração de vez em quando pra saber como é...

8.30.2007

Caixinha pequena de bom parecer, não há marceneiro que possa fazer...

Versinhos de criança que a gente lembra e têm gosto de nuvem, gosto de coisa bem vivida, aroma de café com leite. Meu avô conhecia vários desses versinhos e provérbios. Contava histórias da sua infância, da cidade de São Paulo, onde cresceu depois de vir de não sei onde do interior. Seus pais vieram da Espanha mas ele nasceu aqui: espanholito brasileiro. Seu pai morreu quando ele ainda era bem pequeno e ele começou a trabalhar para ajudar a família, cheia de crianças, 5 ou 6 irmãos, não sei ao certo. Hoje só uma delas é viva, a caçula. Os outros todos já foram descansar em outras dimensões, inclusive meu avô.

Levou uma vida difícil, que em suas histórias, transformava-se em magia. Momentos mágicos. Da fábrica de doces em que trabalhou ainda criança confeitando biscoitos em formato de cavalinhos, até a entrega de leite que fazia rendia histórias incríveis. Conhecia muita gente, conversava com todos e esse jeito aberto o acompanhou pela vida inteira. Entrava no ônibus e puxava conversa com todo mundo, cumprimentava o bairro inteiro e chamava as crianças de "curintianinho".

Foi polidor, trabalhou bastante, ganhava dinheiro pra levar a família pra passear e comer camarão. Família que construiu como construiu toda sua vida: magicamente. Morava numa pensão pra rapazes e minha vó trabalhava e morava lá. Separada e com seu filho pequeno conquistou o coração do galã e viveram juntos por 50 anos. Passaram por momentos muito tristes, complicados. Superaram tudo e hoje em dia são a principal lembrança da minha infância.

Foi meu avô que me ensinou a ler e a escrever, com três anos de idade. E se orgulhava quando eu pronunciava alguma palavra complicada:

"- Vovô, falou na TV: ma-te-má-ti-ca!"

Ele adorava contar essa história e mostrar que a neta "primogênita" dele era especial. Quanto carinho, quanto amor eu guardo na minha "caixinha de bom parecer". Quanto devo da minha vida, do meu aprendizado, do meu caráter a essa figura maravilhosa que agora conta suas histórias aos anjos que voam por aí. Às vezes consigo até ouvir, ao longe, quando o vento sopra em minha janela: ma-te-má-ti-ca...

8.28.2007

Faca de dois gumes ou pra cortar dois legumes?

É, o tempo passa, o tempo voa e a poupança bamerindus continua numa boa. Nem a poupança Bamerindus sobreviveu. Nem ela, nem eu. Nem ninguém. A cada dia a gente morre um pouquinho e renasce no outro. E isso é bom porque a vida vai passando e as coisas sempre mudando. A última vez que escrevi aqui tinha 27 anos. Mês que vem faço 30. Mudou muita coisa? Sim e não. É a tal faca de dois gumes. As coisas sempre mudam, mas e o que a gente é por dentro?

Pieguice dá um tempo que não foi por isso que voltei a escrever. Voltei a escrever porque percebi que é uma das coisas da vida que gosto realmente, mas faço pouco graças a um grande (e terrível) traço de personalidade: a preguiça. Dos "pecados capitais" esse é o meu. Deixo de lado muita coisa por causa dele. Não, não me orgulho disso, nem acho bom. Faz parte das mudanças que preciso fazer. Das mais difíceis porque não tem forma e está tão emaranhada em mim que não sei às vezes distinguir quem manda afinal nesse ser ilusório chamado Débora.

Mas as rédeas estão nas minhas mãos e isso é uma grande coisa. Apesar de nunca ter levado a vida com rédea curta, sempre deixei me guiar por aí meio sem rumo, balançando pra lá e pra cá. Mas como nunca me deixei levar por caminhos que realmente não queria ir, significa que de alguma maneira segurei a tal "rédea". Mas onde é que eu estava mesmo? Escrever.

Como já disse, mês que vem "balzaqueio" e tenho uma lista igual a das resoluções de ano novo. Resoluções de vida nova. Mesmo sabendo que listas de resoluções são as coisas mais ignoradas do planeta. Uma dessas resoluções é tentar ser mais leve, inclusive no peso, e quem me conhece sabe que não sou daquelas que precisa perder só 3 quilinhos. Mas acho que uma coisa "leva" a outra. Quando minha mente conseguir ser mais leve o corpo acompanhará, assim espero. Outra coisa é dar menos superfície de contato à tal preguiça que consome minhas horas. Mais uma, trabalhar com alguma coisa de que eu goste de verdade. Trabalhar escrevendo, escrever trabalhando. Ah, levar a faculdade a sério, terminar um semestre completo é meu grande desejo!

Ligar menos para as outras pessoas, tanto no aspecto figurado quanto no real. Me importar menos com o que os outros dizem e usar menos o telefone. Conseguir ser mais direta e comer menos pelas beiradas. Ir ao médico e ao dentista regularmente. Comer melhor e menos. Dar menos de comer a quem nem tem tanta fome assim, se é que vocês me entendem. Parar de comer as unhas, já que estamos no assunto. Beber com moderação. Viver com moderação. Aprender a dirigir. Mexer um pouco esse traseiro gordo. Usar filtro solar. Terminar de mobiliar a casa e tentar comprar a minha própria. Fazer uma tatuagem, escrever um livro, conseguir manter alguma planta viva por mais de 2 meses e não, não ter um filho. Diminuir a emissão de gases no meio ambiente (Já pensou em besteira, né?).

Fazer aulas de marcenaria e escrever, mais uma vez, que é pra me certificar de que será cumprida pelo menos essa parte. Bem, já tenho a lista, agora é ir às compras. Opa, onde foi que eu deixei o papel mesmo?