9.20.2007

Rearview mirror

Rearview mirror” sempre foi uma expressão confusa pra mim. Difícil pronunciar, vira uma coisa só. Lembro de uma conversa que tive, lá atrás, sobre essa expressão. Na verdade foi um treino de pronúncia, mas só saía errado. Nunca dei muita importância ao significado disso. Mas, para quem acredita em destino, sina, não coincidências, essa palavra veio bater à minha porta hoje. Em português, mas não poderia deixar de lembrar de sua irmã inglesa, depois de tentar dizer tantas vezes, em vão, como num trava língua, o tal do rearview mirror.

Veio numa frase, ao me olhar no espelho e ver refletida a parede da cozinha: cansei de olhar a vida pelo retrovisor. “Objects in mirror are closer than they appear”. Mais perto do que aparentam ou mais importantes do que realmente são? Olhar a vida pelo retrovisor é trazer diariamente de volta tudo aquilo que já devia ter ficado pra trás: as dores, os amores, as alegrias, o passado. O retrovisor refaz o caminho e o hoje fica perdido atrás dele.

Num carro o retrovisor é essencial. Até brinco, eu que não dirijo, dizendo que precisaria de muita coordenação para olhar em todos aqueles espelhos, prestar atenção no caminho, nos outros carros, trocar a marcha, acelerar e frear, ouvir música e conversar com o passageiro. Na verdade meu “medo” de dirigir deve ser diretamente relacionado ao fato de que só prestaria atenção ao retrovisor. Me perderia no caminho, não ouviria a música, a voz do passageiro soaria distante como num bar com música ambiente. Ficaria estacionada, sem acelerar ou frear, com a mão esquerda pousada no volante e a direita estática, em ponto morto. O carro tornaria-se então uma extensão de mim e eu seria uma parte do cenário. Filme sem diretor, sem atores. Só cenário.

“Em que espelho ficou perdida a minha face?”. O espelho inverte as imagens, então sou um reflexo invertido do que realmente sou? E o que vejo pelo retrovisor é um retrato ao contrário das coisas que me aconteceram? Dizem que há espíritos que ficam perdidos em espelhos, vagando de moldura em moldura. Reflexos de pessoas que perderam-se em seu passado e não conseguem desprender-se dele. Do espelho e do passado. Me assusta a hipótese de perceber que minha vida acontece por detrás de mim, sobre meus ombros e que sou apenas uma espectadora. Me assusta, um dia, ver uma figura tão distante do que eu acredito ser e já não poder quebrar o espelho. Porque eu seria o espelho. E sem ele eu não seria mais ninguém.

Cobrir os espelhos da casa traria o esquecimento? Me daria a oportunidade de olhar para a frente, com meus próprios olhos, sem máscaras? Descobriria meu próprio eu? Ou já sou parte do que visualizei e construí? Seria como no retrato de Dorian Gray? Quem escreve estas linhas é a imagem ou o objeto? Existe realmente essa dualidade? Cada um de nós é o conjunto do que realmente é e o que vê refletido?

Diversas vezes ouvimos dizer que os olhos são o espelho da alma. Trazemos um retrovisor em nossos olhos. E temos a opção de olhar para ele ou através dele. Como descobrir de que maneira estamos olhando? Não há como saber. Mas não podemos acreditar em tudo que nossos olhos vêem. Podemos simplesmente estar olhando do modo errado.

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