10.07.2007

O sol, as massas e as maçãs...

Fui embora de mim e sabia perfeitamente que era o que deveria ter feito. Saí, bati a porta e chamei o elevador. Desci e segui por caminhos estranhos, estreitos, estéreis. Estanquei o sangue que escorria por meus poros cansados e entrei na água. Água corrente, recorrente de meus tempos esquecidos. Aquela água em que me banhei, na qual a vida foi criada, agora me transformava em outra coisa, outro ser, outro peso e outra medida. Novos sabores, novos aromas e novas sensações. Diferentes, mas nunca ruins.

Não quis olhar para trás, não quis rememorar o indizível, nem cair em tentação. Segui caminhando entre arbustos negros, mata fechada, insetos gigantes. Firme, forte e segura, apertei o passo. Tropecei. A grama tocava meus braços, incômoda. Uma grande serpente atravessou o caminho por cima de minha perna direita. Passou deixando em minha pele uma marca rosada de serpente imaginária.

Levantei e meus pés não mais tocavam o chão. Mexia os dedos, fazia acrobacias pouco acima do solo que até então me sustentava. Eu não precisava do solo, eu não precisava dos pés a não ser para me impulsionar para a frente e não para me apoiar. Meu apoio eram os fios de cabelo que bailavam contra e a favor do vento leve que se embrenhava por todos os espaços. Eu era livre, eu estava desconectada daquele mundo e assim encontrava o meu próprio.

Já sentia para que lado ir e seguia por esse caminho simplesmente apontando o olhar. E voei por séculos sentindo o sol acariciando todo meu novo ser. Fui ao infinito e além, agora eu era a Dorothy com seus sapatinhos mágicos e conhecia meu novo mundo colorido, pintado por Frida Kahlo, embalada pelo som de Morricone.

Meu novo mundo era assim: brilhante, radiante, lúdico. E nunca mais olhei para trás, onde jazia meu antigo corpo inanimado.

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