Versinhos de criança que a gente lembra e têm gosto de nuvem, gosto de coisa bem vivida, aroma de café com leite. Meu avô conhecia vários desses versinhos e provérbios. Contava histórias da sua infância, da cidade de São Paulo, onde cresceu depois de vir de não sei onde do interior. Seus pais vieram da Espanha mas ele nasceu aqui: espanholito brasileiro. Seu pai morreu quando ele ainda era bem pequeno e ele começou a trabalhar para ajudar a família, cheia de crianças, 5 ou 6 irmãos, não sei ao certo. Hoje só uma delas é viva, a caçula. Os outros todos já foram descansar em outras dimensões, inclusive meu avô.
Levou uma vida difícil, que em suas histórias, transformava-se em magia. Momentos mágicos. Da fábrica de doces em que trabalhou ainda criança confeitando biscoitos em formato de cavalinhos, até a entrega de leite que fazia rendia histórias incríveis. Conhecia muita gente, conversava com todos e esse jeito aberto o acompanhou pela vida inteira. Entrava no ônibus e puxava conversa com todo mundo, cumprimentava o bairro inteiro e chamava as crianças de "curintianinho".
Foi polidor, trabalhou bastante, ganhava dinheiro pra levar a família pra passear e comer camarão. Família que construiu como construiu toda sua vida: magicamente. Morava numa pensão pra rapazes e minha vó trabalhava e morava lá. Separada e com seu filho pequeno conquistou o coração do galã e viveram juntos por 50 anos. Passaram por momentos muito tristes, complicados. Superaram tudo e hoje em dia são a principal lembrança da minha infância.
Foi meu avô que me ensinou a ler e a escrever, com três anos de idade. E se orgulhava quando eu pronunciava alguma palavra complicada:
"- Vovô, falou na TV: ma-te-má-ti-ca!"
Ele adorava contar essa história e mostrar que a neta "primogênita" dele era especial. Quanto carinho, quanto amor eu guardo na minha "caixinha de bom parecer". Quanto devo da minha vida, do meu aprendizado, do meu caráter a essa figura maravilhosa que agora conta suas histórias aos anjos que voam por aí. Às vezes consigo até ouvir, ao longe, quando o vento sopra em minha janela: ma-te-má-ti-ca...
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