9.24.2007

O vôo

A semana passada inteira me fez companhia uma "aleluia", daquelas verdinhas, bonitinhas, nem sei se têm esse nome mesmo, que não fazem mal nenhum e adoram bailarinar em volta das lâmpadas acesas. Todas as noites ela aparecia e eu até já havia me acostumado à sua presença. Dizem que pessoas que moram sozinhas ficam assim mesmo, falando sozinhas, "adotando" insetos que aparecem de vez em quando. Para espantar a solidão, talvez. Ou só para ter com que, ou quem, interagir.
Ontem olhei pra ela e pensei: o que essa coitada come aqui, trancada nesse apartamento. Na verdade nem sei o que aleluias comem, mas de vento é que não vivem. Conversei então com ela e disse que apesar da sua companhia até agradável ela precisava ir embora, senão morreria. Fui dormir e ela ficou na minha sala sem janelas.
Acordei hoje a vi no batente da janela do quarto. Ela havia me entendido, da maneira dela, claro. Entendimentos desses desentendidos, sem explicação. Peguei-a em minhas mãos, abri a janela e como quem deixa escorrer um punhado de areia deixei-a ir, voando, atrás de suas verdades. A aleluia se foi.
Essa semana foi a segunda vez que soltei os dedos... e talvez não tenha sido a aleluia a única que voou...

9.20.2007

Rearview mirror

Rearview mirror” sempre foi uma expressão confusa pra mim. Difícil pronunciar, vira uma coisa só. Lembro de uma conversa que tive, lá atrás, sobre essa expressão. Na verdade foi um treino de pronúncia, mas só saía errado. Nunca dei muita importância ao significado disso. Mas, para quem acredita em destino, sina, não coincidências, essa palavra veio bater à minha porta hoje. Em português, mas não poderia deixar de lembrar de sua irmã inglesa, depois de tentar dizer tantas vezes, em vão, como num trava língua, o tal do rearview mirror.

Veio numa frase, ao me olhar no espelho e ver refletida a parede da cozinha: cansei de olhar a vida pelo retrovisor. “Objects in mirror are closer than they appear”. Mais perto do que aparentam ou mais importantes do que realmente são? Olhar a vida pelo retrovisor é trazer diariamente de volta tudo aquilo que já devia ter ficado pra trás: as dores, os amores, as alegrias, o passado. O retrovisor refaz o caminho e o hoje fica perdido atrás dele.

Num carro o retrovisor é essencial. Até brinco, eu que não dirijo, dizendo que precisaria de muita coordenação para olhar em todos aqueles espelhos, prestar atenção no caminho, nos outros carros, trocar a marcha, acelerar e frear, ouvir música e conversar com o passageiro. Na verdade meu “medo” de dirigir deve ser diretamente relacionado ao fato de que só prestaria atenção ao retrovisor. Me perderia no caminho, não ouviria a música, a voz do passageiro soaria distante como num bar com música ambiente. Ficaria estacionada, sem acelerar ou frear, com a mão esquerda pousada no volante e a direita estática, em ponto morto. O carro tornaria-se então uma extensão de mim e eu seria uma parte do cenário. Filme sem diretor, sem atores. Só cenário.

“Em que espelho ficou perdida a minha face?”. O espelho inverte as imagens, então sou um reflexo invertido do que realmente sou? E o que vejo pelo retrovisor é um retrato ao contrário das coisas que me aconteceram? Dizem que há espíritos que ficam perdidos em espelhos, vagando de moldura em moldura. Reflexos de pessoas que perderam-se em seu passado e não conseguem desprender-se dele. Do espelho e do passado. Me assusta a hipótese de perceber que minha vida acontece por detrás de mim, sobre meus ombros e que sou apenas uma espectadora. Me assusta, um dia, ver uma figura tão distante do que eu acredito ser e já não poder quebrar o espelho. Porque eu seria o espelho. E sem ele eu não seria mais ninguém.

Cobrir os espelhos da casa traria o esquecimento? Me daria a oportunidade de olhar para a frente, com meus próprios olhos, sem máscaras? Descobriria meu próprio eu? Ou já sou parte do que visualizei e construí? Seria como no retrato de Dorian Gray? Quem escreve estas linhas é a imagem ou o objeto? Existe realmente essa dualidade? Cada um de nós é o conjunto do que realmente é e o que vê refletido?

Diversas vezes ouvimos dizer que os olhos são o espelho da alma. Trazemos um retrovisor em nossos olhos. E temos a opção de olhar para ele ou através dele. Como descobrir de que maneira estamos olhando? Não há como saber. Mas não podemos acreditar em tudo que nossos olhos vêem. Podemos simplesmente estar olhando do modo errado.

9.19.2007

O passarinho do peitinho amarelinho

Da minha janela vejo um passarinho na gaiola. Ele tem o peitinho amarelinho e a cabecinha preta. De sua gaiola ele vê os outros pássaros, livres a voar, conquistando os ares, posando nas árvores, cantando sua liberdade natural. O passarinho da gaiola também canta, mas seu canto na verdade é um lamento e me faz chorar. Quanta crueldade prender o bichinho e ainda ficar jogando na cara dele: eles podem, você não pode...

9.18.2007

Sol e chuva, casamento de víuva...

Não queria um mundo perfeito, onde tudo desse certo e as coisas fossem fáceis. Onde não houvesse dúvidas e todo dia fosse ensolarado. Que cada coisa acontecesse na hora em que desejássemos e não precisássemos esperar pelo pão quente. Sem filas, sem trânsito, sem dor de cabeça, sem menstruação. Sem amores perdidos e encontrados por outras pessoas. Sem flores murchas, sem morte, sem angústia. Não, eu não gostaria de um mundo assim. Gostaria de um mundo assado. Com mollho madeira e vinho acompanhando. De sobremesa uma bola de sorvete de pistache. E depois um cafezinho bem forte.
Depois de comer o mundo as coisas seriam mais tranquilas porque eu seria o mundo também. E por isso ele não precisaria ser perfeito porque ninguém é perfeito. Nem eu, nem o romeu. E quando me desse vontade de furar a fila, ou de pegar o pão quente do forno era só me mexer, mexerica. E quando chovesse eu ligaria o interruptor do sol e deixaria a água cair amarelinha. Se estivesse em dúvida, abriria meu dicionário de questões "irresolvíveis" procuraria o vocábulo correspondente, que eu mesma criaria e pronto: dúvida sanada. Porque eu seria o mundo e o mundo seria meu. E na minha imperfeição tudo daria certo. Até o que parecesse errado.

9.15.2007

Imaturidade forever

Lembra quando você estava na quarta série e aquela amiguinha falou que seu peito era maior que o dela? O que para você, na época, era uma tragédia porque você só tinha uns 10 anos de idade e já usava sutiã, morrendo de vergonha porque era uma das pouquíssimas da sala que precisavam desse acessório terrível. É, talvez você não se lembre porque muito provavelmente você também ainda não tinha peito, diferente de mim. Mas continuemos hipoteticamente falando. Você se sente a pior das pessoas, a mais humilhada e vira a cara para aquela menina horrorosa que você lembrará para o resto da vida. Aí começam as provocações, os meninos entram na onda e você conhece na pele a imaturidade e maldade inerente às crianças/pré-adolescentes.

Os anos passam e você cresce, junto com os peitos, que a um certo momento passam fazer você se sentir mais como mulher e isso torna-se uma coisa boa. Mas aí percebe que você é branquela demais e usar uma saia torna-se seu mais novo motivo de pesadelos porque a imaturidade e maldade das pessoas continua e você é obrigada a ouvir, quase que diariamente, piadinhas sobre sol, bronzeamento e companhia. Você tambem é imatura, caso contrário nem daria bola pra essas coisas. Mas começa a perceber que não é legal ficar gritando aos quatro ventos o que você considera um defeito nas outras pessoas. É a luz da maturidade que começa a brilhar no seu horizonte.

Então você fica adulta. As pessoas com que você se relaciona são adultas. O universo em que você vive é outro mas você realiza em sua mente brilhante que a maturidade não é para todos realmente. Vez ou outra, ou vez e sempre, você encontra pessoas que vivem com a cabeça na quarta série e pequenas humilhações e atitudes não passaram pelo crivo do tempo. Você ainda se importa, se chateia, mas agora de maneira diferente: não porque você foi afetada com esses comentários ou atitudes, mas sim porque acha inconcebível que algumas pessoas cresçam e outras não.

Todos temos algum traço de imaturidade que levamos por toda a vida, isso é fato. Mas existem pessoas que fazem dessa imaturidade uma desculpa para justificar seus atos perante os outros. E isso, uma hora, com o perdão da expressão, dá no saco. É um porre ter que aguentar desculpinhas esfarrapadas, seguidas de atitudes contraditórias porque as pessoas simplesmente não conseguem assumir suas fraquezas e vicissitudes. É difícil ser sincero, é difícil dizer a verdade e assumir as conseqüências que isso traz. Mas essa síndrome de "peter pan forever" é uma coisa tão disseminada hoje em dia que o relacionamento com outras pessoas torna-se uma coisa extremamente mais complicada do que já é normalmente.

Eu ainda faço birra, tenho ciuminho besta de amigas, limpo o potinho de iogurte com o dedo e adoro cereal coloridinho. Imaturidades que nos fazem bem, que não deixam a criança dentro de nós desaparecer e deixam nossa vida mais leve. Mas deixar essa criança tomar as atitudes que um adulto deveria tomar é um pouquinho demais e cansa a beleza de quem está por perto. Cresçam e apareçam um pouco. Coragem, irmãos!!! Dêem a cara a tapa um pouquinho e não se escondam atrás da máscara do "barney" (o dinossauro pink horroroso!!!). Deixem os teletubies de lado e comecem a agir conforme a idade que vocês têm realmente e não com a idade mental que conservam desde que tinha 10 anos. Comam "froot loops" mas não esqueçam da beleza do sushi...

9.14.2007

Sobre amor e amigos

* "O amor por uma pessoa deve incluir os corvos de seu telhado."


Hoje é meu aniversário. 30 anos muito bem vividos, obrigada! Ao acordar, no meu horário habitual, tive uma surpresa: recebi uma cesta de café da manhã. De duas amigas irmãs muito queridas. Fiquei tão, mas tão feliz, que se meu dia iria ser bom, agora ele será sensacional. Isso me leva a pensar: como um pequeno gesto transforma nossas vidas e que o maior presente que podemos receber da vida é esse: amigos de alma que estão sempre ali, com o coração e os braços abertos, prontos para ficar ao nosso lado quando precisamos, prontos a nos dar bronca quando merecemos e para nos dar parabéns quando conseguimos conquistar nossos objetivos. E que sabem exatamente a que horas mandar entregar o café, quando sabem que você não acorda antes das onze da matina!

Vejo por aí pessoas que passam seus dias reclamando, dizendo que não têm sorte, que a vida não é boa para elas. E me pergunto: por que será? Será que não tem amigos especiais que façam valer a pena? E nesse rol de amigos incluo a família, que no meu caso é de amigos também. Minhas irmãs são umas queridas, fofas, maravilhosas, assim como minha mãe e minha avó. E apesar das minhas "pendengas" com meu pai sei que ele também está lá, se eu precisar.

Texto piegas? Pode ser, mas não poderia deixar de agradecer aos céus tudo o que a vida sempre permitiu que eu tivesse, incluindo os momentos difíceis, que todo mundo tem, mas que sempre vão embora e que nunca conseguiram tirar o sorriso do meu rosto.

As pessoas não são perfeitas, todos têm seus corvinhos no telhado, mas adoro os corvinhos de todos vocês, amigos e amigas, de perto, de longe, de todo lugar. E obrigada por compartilharem comigo cada dia, cada vitória, cada tristeza e cada novidade. Meu melhor presente é o amor que sinto por vocês!!!


* Provérbio dito chinês, mas em se tratando de internet nunca se sabe. Mas o que vale é o conteúdo e não a forma.

9.05.2007

A espreguiçadeira de cristal

Um dia sonhei em ter uma cama de princesa. Daquelas enormes, com dossel, cabeceira dourada. Sonhar com campos distantes, belezas que só conheço na minha imaginação. Tenho uma cama comum, sem cabeceira, mas com seu charme, garantido pela decoração que eu mesma criei. Mas depois de um tempo os sabores mudam, as vontades se transformam assim como a vida. Penso em Paris, Barcelona, Lisboa como lugares que preciso conhecer antes de morrer. Assim como Salvador, Belém do Pará, Amazônia; sentir os aromas do mundo, conhecer as vontades de outras pessoas.

E hoje tenho uma espreguiçadeira, chaise para os chiques de plantão. Parece uma grande bobeira, mas ela é um convite a não fazer nada, na verdade ao ócio criativo, já que a primeira visão que tenho dela é de uma prateleira de livros, cheia de coisas que ainda não li porque minha cama sem dossel não me transmitia as mesmas vontades. Me jogo ali e o mundo abre-se novamente. Conheço novas pessoas, com histórias diferentes, assuntos interessantes. Vou de
Saussure a Jorge Amado em poucos minutos pois tudo ali é possível.

É possível pensar na vida olhando de fora. Deitada a reconstruir o "inconstruível", a imaginar os campos vastos e imensas metrópoles. Lutar contra moinhos de vento e me perder dentro do coração selvagem, passear pela Mata Atlântica e saber um pouco da vida de Neruda. Tudo ali, da espreguiçadeira, do meu grande novo portal para um admirável mundo novo.

9.04.2007

Um dia de chuva para um dia de sol

"É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva..."

[Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos]

Simples assim é a vida. Não tome um dia de chuva como um complô contra você. E não entenda a tristeza como algo que foi feito pra te machucar. Viva cada dia. Aproveite seus sorrisos e não amaldiçoe suas lágrimas. Não se preocupe demais, não esperneie, mas morra de amor por um dia, chore no final do filme e sorria para o cachorro que passa...